Kanashiro é Kureiji e Kureiji é essa deliciosa loucura:a culinária japonesa universal
O novo restaurante do chef é a expressão de sua louca paixão pela universalidade dos sabores, misturando Japão, Brasil e sua própria história.
O chef Adriano Kanashiro no seu Kureiji (foto Neuton Araújo)
Adriano Kanashiro está dando um show de vitalidade criativa no seu novíssimo Kureiji, restaurante inaugurado no início do ano nos Jardins, em São Paulo. Kureiji é como se diz em japonês a palavra em inglês crazy. A vibe de Kanashiro é essa, louca por experimentar, mostrar, contar com o gosto de cada item as histórias e aventuras que viveu — e aquelas que é possível viver! Foram quase 10 anos fora do Brasil, trabalhando na África no comando de restaurantes em Gana, depois de nos encantar por aqui com suas casas Momotaro, Kinu, no Hyatt, e o restaurante com seu nome. Sansei paranaense, seus avós imigrantes de Okinawa e os pais donos de bar em Londrina por certo estão orgulhosos da fascinante jornada que o chef vem construindo com sua culinária japonesa universal — como ele, marcada pela experiência, técnica e ousadia.
Eu tenho um apreço especial pela audácia de gente como AK, sejam personagens de quaisquer áreas: da música, da moda, do design, da gastronomia. E só sendo muito autêntico — e kureiji — para elaborar um menu intrigante e equilibrado, como ele faz, mesclando as culturas orientais e ocidentais. Pratos como o kuro ebi tempura, tempurá negro de camarão com molho ganense, cítrico e levemente apimentado, ou o kon ribu, espiga de milho grelhada com missô e pó de kimchi são fascinantes. E a brasilidade que ele sinaliza nas preparações revela todo esse talento. O shari (arroz do sushi) do restaurante é preparado com dois tipos de arrozes: o japonês e o miniarroz da Ruzene, brasileiríssimo, cultivado no Vale do Paraíba. E ainda tem um toquinho de tucupi! Outro prato que brinca com essa mistura e dá muito certo é a barriga de porco feita em teriyaki de jambu. Adriano Kanashiro tem um senso de humor do tamanho de sua genialidade!
Tempurá negro de camarão com molho ganense (foto Neuton Araújo)
As sobremesas são privilegiadas pela combinação elegante que Ak promove. Amei o mochi chokoreto, o mochi de chocolate com banana e gotas de chocolate rubi, cor de rosa, com calda de gergelim preto — é servido com sorvete de matcha e pistache, imagine as cores. A carta de bebidas apresenta uma interessante seleção de saquês e belos coquetéis, que são assinados por Ricardo Barrero. Para combinar com os pratos, há sugestões de harmonizações - a visita à casa fica ainda mais interessante, entregue-se à experiência. Com ou sem álcool, há opções como o matcha sour, drinque que combina o matcha verde com cachaça, suco de yuzu e xarope de açúcar. Ou uma versão do Bloody Mary que tem kimchi.
O chokoreto é um mochi de chocolate e banana (foto Neuton Araújo)
Matcha Sauer, drinque da carta assinada por Ricardo Barrero (foto Neuton Araújo)
No pequeno Kureiji — são 30 lugares e parte deles no balcão — há tempo e espaço para tudo. Minimal e colorido, o restaurante oferece um ambiente afável e claro, com obras de arte do Japão, de Gana e cerâmicas de Hideko Honma no serviço e na decoração. Tudo leva a crer que a tradição abre alas à criatividade quando há ciência e sensibilidade. Kanashiro sempre teve. Ele retorna à SP mais vivido em culturas e sabores que adicionou à culinária japonesa de seu dna, e somos nós os sortudos de tê-lo de volta à nossa cada vez mais rica cena gastronômica.
Arte do Japão e cerâmicas de Hideko Honma (foto Neuton Araújo)