Todos os dias com Paola Carosella
Paola Carosella
Retomei Todas as Sextas com a Paola enquanto aguardava a reabertura do seu Arturito no novo endereço. O livro lançado em 2016 (Editora Melhoramentos) tem 352 páginas que encantam na autenticidade — seja nas receitas, seja no capítulo de abertura, em que narra sua trajetória de vida, a história pessoal e profissional sem floreios. A obra vai até o momento em que Paola assume sozinha o restaurante que fundou com mais seis sócios, tomando para si as sextas-feiras na cozinha. Paola mudou o Arturito de endereço, reinaugurado em março no Jardim Paulista, depois de 16 anos na Artur de Azevedo que lhe deu o nome, em Pinheiros. Ela afirma que, agora, recuperou o conforto de se sentir em casa, como descreve seu momento: madura, preparada.
A jornada profissional de Paola Carosella começou cedo, na sua Argentina natal, passou pelo mar, pela montanha, pelas cozinhas profissionais de Paris, por muito suor até chegar em São Paulo na figueira dos Iglesias — Rubaiyat e ela estrearam juntos na gastronomia do país. A vida pessoal atravessa a cozinha e vice-versa, em cada gota derramada: não tem como separar a menina que terminou a escola e foi aprender a vida no fogão, a cozinheira que percebeu a mãe partir no intervalo entre turnos, a jovem exausta que deixou o restaurante de sucesso para viajar no mundo e, na volta, inaugurar sua primeira casa, o Julia Cucina. Depois disso, o Arturito, viabilizado com uma penca de sócios. Longe do sonho que imaginou para o seu próprio restaurante, refez o formato comprando a sua parte e daí surgiu a empresária —“dona de restaurante é mais empresária que cozinheira”, ela descobriu. Foi aí que Todas as Sextas aconteceu: nesse dia da semana, estava na cozinha para o almoço executivo, chovendo ou não. A mulher que deu à luz a uma bebê e sentiu renascer a coragem para empreender com seus planos. Bela, verdadeira e visceral, Paola e sua história contam acertos e frustrações, narrando os dias na cozinha e as passagens da vida no mesmo tom apaixonado.
É tudo a mesma Paola, como escreve no livro: “Sou cozinheira e sempre serei cozinheira”. Ela faz comida de verdade, sou fã das receitas que apresenta em seu canal no Youtube — as clássicas do repertório gastronômico do mundo, as que ela interpreta do seu jeito, as de suas memórias, como o ravioli da Mimi, o arroz com ovo da adolescência. Também sou fiel cliente das empanadas, alfajores e tabletón do La Guapa, marca que ela lançou com o sócio e espalha em franquias, até perto de mim, para minha felicidade e da clientela comilona aqui de casa.
No Arturito, ela destaca os clássicos e comenta a liberdade de fazer o que gosta, sempre com o rigor e qualidade que o compromisso requer — mais um de seus atributos. Diz que não quer viver a pressão de ter que surpreender, e se refere às frivolidades modernas que a gastronomia compartilha como verdades. Só que quem faz um coquetel de camarão se tornar um must-eat no restaurante está sim apresentando uma inesperada surpresa no sentido mais encantador da palavra. O Arturito é isso: uma ode à elegância, aos sabores de origens e tradições diversas, executados com pertinência, e está recheado dessas surpresas, basta seguir o cardápio e/ou o instinto. Começando pelos drinques (um blood Mary comme il faut, por exemplo), passeando por uma versão admirável da salada Waldorf, as massas, as carnes, os peixes e pescados, tudo no embalo carosella que está presente em cada detalhe.
Viajada, refinada e um tanto rústica, essa chica não dá sossego pra ela nem pra ninguém, ainda que eleja a calma como a canção que quer ouvir na sua cozinha e na vida. Aprendizados da maturidade, da experiência, da sabedoria que lhe é própria, como essa graça de bailarina na cozinha e no salão — ah! agora ela passeia entre as mesas quase todos os dias.