Talitha & Conceição Arroz, ovo, música e pudim: você é algo assim...
Sou das que prefere estilo e personalidade aos estrelismos de carteirinha.
Gosto de novidade sim, sem frescura; de clássicos — amo! — com pitadas de quem assina, e, como o Cazuza, adoro um drinque inventado: ainda mais com pedrinhas de gelo. Pode me seguir que não tem erro nem perdido.
Talitha Barros é dessa praia, não falta bossa na garota e nem agá no nome: ele surge assim, inesperado, no fim da escrita, uma surpresa como ela só.
Talitha nas pick-ups do Conceição
A experiência body & soul em seu Conceição Discos é divina, vai do olfato ao tato num crescendo, sabores e sons no ápice da jornada. O restaurante na Santa Cecilia, onde está há mais de 10 anos (desde que abriu), colore a calçada com sofás, mesinhas, plantas e poltronas; captura o olhar com pratos e copos de todos os gêneros e texturas e rouba o ar com a visão da cozinheira exuberante nas pick-ups rebolando arrozes. Tem arroz para gregos e baianos — comida quentinha e saborosa. Pudim, bolos fartos, lá o mundo tem razão. De terça a sábado, um domingo por mês e de repente em uns feriados, sempre almoço. Sempre cheio, toda gente cabe lá. Vão pela comida, pelas bebidas — cervejas, uma série de kombuchas, vinho em taça, sucos — e a vitrola tocando BB King sem parar. Soul music na veia (Tim Maia, Benjor, Isaac Hayes), o preferido Michael Jackson, os clássicos da MPB, tropicalhos e ramalhos, vinis para tocar e vender com a apurada curadoria da Ceição. Quando falei corpo e alma, era isso.
Arroz de carne assada e aquela pimentinha
Escrito na parede, para deixar bem claro
O arroz é a sua mais completa tradução, então dois arrozes a cada dia — de costelinha, de camarão, polvo, lula, de carne assada, com opções veganas para equilibrar: de beterraba, de abóbora, berinjela e de cogumelos. Ovo onde quiser, está escrito na parede: então peça ovo no arroz, escolha o pão de queijo recheado com pernil — e ovo!
É bom guardar fôlego para as sobremesas. Bolos, brownie, tortas, uma paçoca de amendoim feita por Talitha no maior capricho, um pudim de leite para não esquecer o que é a tal da felicidade.
Vou lhe deixar a medida do pudim: dá pra dois!
Um pé no East Village, outro no Marais... a sensação cosmopolita a que me remeteu a sua levada gastronômica é o tanto de brasilidade que ela tem, uma cozinha cultural brasileira. Ela diz que o arroz permite que passeie pela diversidade de sabores do Brasil com aquela alegria e sustância que existe no nosso PF. Essa representação ela levou a Paris há pouco, convidada para cozinhar no Brutos, do gaúcho Lucas Baur, no 11º arrondissement, onde estive em fevereiro durante as férias. Talitha arrasou com bolovo de arroz, pão de queijo com pernil, arroz de galinha com quiabo e a sua paçoca com sorvete de banana.
Louca pra voltar. Agora fica no meu ouvido o Tim Maia a semana inteira, fiquei esperando... Vou pedir pra tocar.